sábado, 26 de setembro de 2009

Respeitável público

O ar lúdico dos circos, palhaços, acrobatas, crianças. E entre a multidão, um homem dialoga, argumenta, questiona, relembra, brinca, e culpa o tempo. O implacável tempo, aquele que nos dá rugas, experiência, e não para. Em hipótese alguma. Não adianta tentar. Essa prerrogativa você não terá!

A xícara de café, lá está ela, a representação máxima de que você é um homem. Faz muito tempo que você mamava como um bezerro. Agora, apesar de odiar café, bebe insistentemente a bebida psicoativa, tem que levar trabalho para casa e ficar acordado até tarde. De madrugada, você faz um assalto à geladeira! E exausto cai inconsciente na cama. Pronto para um pouco mais de quatro horas de sono. Apesar do pouco tempo, você ainda consegue sonhar, suave é a voz de seu pai, aquele que te levava para o circo, te mostrava os bichinhos, e contava historinhas para você dormir.

Ao acordar com o horrendo barulho de um velho despertador, seu dia começa, antes de sair, uma olhada no espelho. Cabelos brancos, rugas, olhos vagos, perdidos, a procura de um menino que se perdeu. O trânsito continua caótico, uma hora e meia de percurso para o trabalho. Telefonemas, e você é obrigado a utilizar seu inglês macarrônico, cena engraçada, mas ninguém acha graça. Talvez se o menino estivesse ali ele esboçaria um sorriso. Seus colegas falam sobre teorias para se evitar o estresse, você ouve algo sobre mudar a rotina. Acha interessante.

Ao sair do trabalho, depois de cumprir hora extra, você muda o caminho de volta, quer fugir da rotina, e se depara com um circo. O circo continua com os mesmos palhaços, acrobatas e crianças. Você sente a necessidade de entrar. Vencido pelo cansaço você adormece, e ao fundo tem uma voz que diz: “Respeitável público!”

sábado, 19 de setembro de 2009

Namoro

Venha, não demore tanto! A minha alma clama por sua presença. O meu ser ainda sente o seu gosto. Não faço questão de egoísmos vãos, afinal, tudo é passageiro (menos o motorista e o cobrador!). Desculpe a piada insana. Eu sei que está tudo bem. Está certo fomos feitos um pro outro. Hoje te comprei bombons. Por que me chama de bobo? Tem motivo? Sei que tem. É tão bom estarmos juntos! Já te falei o tanto que te amo! Não sou tão criativo, creio que não existe outra expressão que se adéque melhor a esse momento. Você me ama? Jura? Então fala ao meu ouvido, melhor, não fala, sussurra! Que bom!

Casamento

Não estou bêbado, pare de falar asneiras. Já paguei as contas. No sofá? Não, isso eu não admito, sou eu quem paga as contas. Você me perdoa? Quero um beijo. A noite foi boa pra você? Grávida? Não vou mais trocar de carro. Tenho que poupar dinheiro. É uma menina! Linda! Vem brincar com o papai! Farra do trabalho, não vou, sou um homem sério! Posso jogar bola? Irresponsável? Eu? Não. Está bem não vou. Faz tempo que não te falo o quanto eu te amo. Nossas vidas estão entrelaçadas demais! Papai e mamãe vão jantar fora, você fica com a vovó esta noite. Diversão! Amo você! Grávida? Outra vez? Vou vender o carro. Um homem tem que tomar decisões difíceis! Chorei. Tinha um belo jogo de rodas! Faz sol. Vamos ao clube? Fica no raso, cuidado! Estou velho. Vou levá-la pela Igreja. Não gosto do rapaz. Lá se vai minha filhinha! Avô? Nossa! Como o tempo é impiedoso. Volto à Igreja. Outra filha que tenho que entregar. Agora somos nós dois. A casa está enorme. Avô? Dois netos. Almoço de domingo, amo todos vocês! Chegou o meu fim. Gostei da vida. Ela sorriu para mim. Acabou!

sábado, 12 de setembro de 2009

Livros de auto-ajuda

As pessoas são estranhas, já afirmava o grande Jim Morrison. A validade de tal premissa encontra-se no fato de existirem leitores para este texto, por exemplo. A capacidade de criar e praticar coisas imprevisíveis faz do ser humano um eterno mágico com truques diversos em sua cartola. É uma beleza inesgotável.

A peculiar habilidade de fazer-se o que não se quer e estar sempre reprimindo suas vontades corrobora com a idéia de que somos estranhos. Por que não comer aquela coxinha? Por que não fazer aquela viagem?Por que não ir àquela loja? Por que não viver? Por que fugir de responder a essas perguntas? Por que se limitar a vaidades? Por que nos torturamos tanto?

A desimportância atribuída a nós mesmos, a perda de tempo com livros de auto-ajuda, a tortura pessoal. Condutas típicas do Homo sapiens, este se esquece de buscar a simplicidade das coisas e de trilhar o caminho da felicidade, esquece-se de observar o bebê balbuciando as primeiras palavras, de se atentar para o casal que se beija na pracinha, para sentimentos como o amor.

Quem sabe as pessoas se sentirão mais felizes quando deixarem de lado os livros de auto-ajuda para observar a singularidade presente na conduta humana. Para admirar os pequenos gestos, para praticar pequenos gestos, para preencher de boas estranhezas esse Planeta Terra. E se sobrar um tempinho, por que não contemplar a vasta obra de Jim Morrison e se estranhizar com o que há de melhor em ser humano.

sábado, 5 de setembro de 2009

Objetivos

O atirador de elite encontra-se no alto de um velho prédio, as suas amizades se resumem aos objetivos traçados. Seus traços são humanos, mas seus instintos são animalescos. Para ele pouco importa o que acontece lá em baixo, ele só quer o tiro perfeito. Assim ele constrói seu caminho, sentir o brilho do laser, sentir o envolvente toque do gatilho. Este é o seu prazer.

A vítima, um sequestrador que passou a vida tentando não se afogar no mar da sociedade. Ele viveu sempre a margem de tudo e todos, muitas vezes passou fome, muitas vezes fez assaltos, sabia que não viveria muito tempo, talvez por isso decidiu fazer a sua justiça social. Seu último sentimento foi a visão de uma pequena luz vermelha entre seus olhos e , enfim, o suspiro final.

O sequestrado era um transeunte, depois de um longo dia de trabalho, depara-se com o fugitivo de um assalto a banco que o toma por refém. A todo instante ele se lembra de seus filhos, seu único objetivo é sobreviver. A tensão faz com que tudo pareça confuso, câmeras de TV, policiais, curiosos, tudo estranho para uma pessoa acostumada com a rotina. Ele percebe a luz vermelha, acha que vai morrer, então vê um corpo ao seu lado.

Os objetivos mostraram-se diferentes, dois foram alcançados. O sequestrador não teve uma vida digna, assim diziam os jornais. O atirador virou herói e deu entrevista exclusiva para uma grande emissora de TV. O sequestrado manteve sua vida medíocre depois de aparecer em uns programas de fofoca. E tudo sempre volta ao normal, afinal, assim caminha a humanidade...