Respeitável público
O ar lúdico dos circos, palhaços, acrobatas, crianças. E entre a multidão, um homem dialoga, argumenta, questiona, relembra, brinca, e culpa o tempo. O implacável tempo, aquele que nos dá rugas, experiência, e não para. Em hipótese alguma. Não adianta tentar. Essa prerrogativa você não terá!
A xícara de café, lá está ela, a representação máxima de que você é um homem. Faz muito tempo que você mamava como um bezerro. Agora, apesar de odiar café, bebe insistentemente a bebida psicoativa, tem que levar trabalho para casa e ficar acordado até tarde. De madrugada, você faz um assalto à geladeira! E exausto cai inconsciente na cama. Pronto para um pouco mais de quatro horas de sono. Apesar do pouco tempo, você ainda consegue sonhar, suave é a voz de seu pai, aquele que te levava para o circo, te mostrava os bichinhos, e contava historinhas para você dormir.
Ao acordar com o horrendo barulho de um velho despertador, seu dia começa, antes de sair, uma olhada no espelho. Cabelos brancos, rugas, olhos vagos, perdidos, a procura de um menino que se perdeu. O trânsito continua caótico, uma hora e meia de percurso para o trabalho. Telefonemas, e você é obrigado a utilizar seu inglês macarrônico, cena engraçada, mas ninguém acha graça. Talvez se o menino estivesse ali ele esboçaria um sorriso. Seus colegas falam sobre teorias para se evitar o estresse, você ouve algo sobre mudar a rotina. Acha interessante.
Ao sair do trabalho, depois de cumprir hora extra, você muda o caminho de volta, quer fugir da rotina, e se depara com um circo. O circo continua com os mesmos palhaços, acrobatas e crianças. Você sente a necessidade de entrar. Vencido pelo cansaço você adormece, e ao fundo tem uma voz que diz: “Respeitável público!”

