domingo, 24 de janeiro de 2010

Continuando...

II

Sonata da tristeza

A vida de Ana Clara drasticamente mudou; a morte de sua mãe causou grande abalo, no entanto, Sofia há muito demonstrava que não gostava de ser madame, apesar de o fazer muito bem. Ficar em casa ou em eventos sociais chatos, nada disso a agradava; o que ela realmente gostava era da liberdade para viver desapegada de compromissos que faziam de si uma prisioneira da vida monótona. Talvez o suicídio de Sofia tenha ocorrido pela vontade de se libertar, a traição do marido pode ter sido apenas um pretexto para toda a dramatização.

Após a morte da mãe, Clarinha viu seu pai tomado pelo remorso. João Augusto preparava suas malas, iria embora do palacete, iria constituir nova vida em Mônaco, tencionava morar com um irmão que assistia no pequeno principado ao sul da França há muitos anos. Clarinha, por sua vez, ficaria sob a responsabilidade de uma tia irmã da sua mãe, seu nome era Téssia, ela residia em São Paulo capital.

O mais triste era abandonar o jardim daquela casa, era um Éden para Clarinha, um paraíso para se admirar. No avião sentido Rio-São Paulo tudo figurava apenas como uma lembrança. A chegada à “Terra da garoa” foi tranqüila e com uma recepção calorosa de sua tia Téssia, esta, era uma mulher solteira e gostava de festas, vivia com o dinheiro enviado pelos irmãos, nunca trabalhara, mas possuía um ótimo apartamento, dois carros muito bons e dinheiro para farrear. Apesar de beirar os quarenta, Téssia parecia uma adolescente na forma e se vestir e de falar.

Clarinha sempre muito educada ouvia pacientemente o falatório da tia, enquanto esta dirigia pelas vias caóticas de São Paulo. Ao chegar ao apartamento, a tia apresenta o quarto que Clarinha desfrutará e diz que a comida é um sério problema naquela casa, sendo que o almoço e jantar eram sempre os de um restaurante localizado em um hotel situado no mesmo quarteirão dos prédios os quais o apartamento se encontrava.

Téssia passou aquela noite em casa, como forma de dar segurança à sobrinha, coisa que não se repetiria na maioria dos dias.

_ Clarinha, vou a um compromisso agora, você fica aqui e não abra pra ninguém, sei que você não assistia à TV em sua casa, mas aqui eu sou liberal, pode fazer o que você quiser.

_ Eu não quero ver TV, tia. Aquelas imagens me assustam. Prefiro um livro. Você possui algum?

_Bem, tenho um que o meu ex-namorado deixou aqui.

_Qual?

_ Casais inteligentes enriquecem juntos.

_Melhor assistir à TV.

_ Você quem sabe, já vou porque hoje tenho um encontro com um gato! Beijos sobrinha! Se cuide.

Clarinha necessitava de algo para fazer, o tédio começava a preencher aquelas horas de todas as noites quando a tia saía. A saudade das boas leituras, das aulas particulares, do jardim, de sua mãe, tudo aquilo dava um ar de infelicidade para a menina, o cheiro da fumaça vinda de toda a cidade, o concreto a sufocava entre as paredes daquele apartamento. Clarinha resolve fugir.

Continua...

sábado, 23 de janeiro de 2010

Comunico aos caros leitores que as postagens serão feitas sempre aos domingos.

Desde já agradeço pela sua participação neste blog!

Abraços

domingo, 17 de janeiro de 2010

I

Valsa da alegria

Aquela menina possuía os olhos sempre atentos, sentava-se de frente para o lindo jardim projetado pelo seu avô, digno de um Burle Marx . Tudo era colorido, desde o seu vestido aos dizeres romancistas que constavam em suas mãos, sua imagem com um livro na mão era parte da paisagem e deixava tudo com um tom mais gracioso. Ela não havia descoberto o lado preto e branco da vida, sua família conservava ensinamentos imperiais e limitava a vida da garota aos sarais de fim de semana, aulas particulares e aos enormes muros daquela magnífica casa. Talvez fosse medo de perdê-la para o mundo selvagem, talvez fosse apenas vontade de conservar aquela beleza inocente. Em pleno século XXI havia uma garota vivendo sobre os moldes europeus de educação oitocentista e, além de tudo, ela estava sobre o domínio da agitada Terra Brasilis.

O nome daquela garota era Ana Clara, Clarinha para os pais e empregados do palacete. Seu pai herdou uma fortuna conservada pela família desde os primórdios da Coroa Portuguesa onde seus ascendentes representavam uma grande força burocrática nos assuntos de Estado. Após a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil a família de Clarinha também veio e aqui fez fortuna, este montante em dinheiro, ouro e imóveis não foi o suficiente para consolidar todos esses anos no cerne governamental. A família primou sempre pela educação, o que proporcionou a formação de grandes diplomatas e donos de grandes meios de comunicação escrita, ramo que geração após geração ficou sobre as mãos do jovem pai de Clarinha, João Augusto.

Clarinha estava prestes a completar quinze anos, sua mãe, exímia madame, se agitava com todos os preparativos para um belíssimo baile com a presença de ilustríssimas figuras nacionais, empresários, banqueiros, políticos, juízes e militares de destaque. A sociedade estava em festa, a falsidade reunia figurões loucos por uma foto na coluna social. Clarinha parecia não se importar muito com o seu aniversário, sua mente flutuava em contos machadianos e façanhas mitológicas da Grécia Antiga.

Tudo parecia compor suavemente os delicados elementos de uma bela valsa até o momento da festa. Uma jornalista funcionária de João Augusto era muito mais que uma empregada assalariada, ela chegou discretamente à festa, sussurrou algo nos ouvidos de João até que sorrateiramente os dois se perderam em algum canto da enorme casa. A mãe de Clarinha, que chamava-se Sofia, estava muito nervosa com os preparaivos e viu a menina ainda lendo em seu quarto, ela retrucou:

_ Filha, vá se arrumar! Dê-me este livro que eu o guardarei na biblioteca!

A menina obedeceu a mãe e começou a vestir um belíssimo vestido desenhado por um importante estilista. Sofia caminhava apressada pelos corredores intencionando chegar o mais rápido o possível à biblioteca, quando chegou ao seu objetivo, uma surpresa! Lá estava o seu marido, João Augusto com a jornalista. Eles se contemplaram por alguns segundos em silêncio até Sofia sair correndo desconsolada pelos corredores com seu marido gritando logo em seguida. Clarinha não entendia todo aquele barulho, foi quando saiu de seu quarto com os choros e gritos de seu pai. Sua mãe trancara-se na cozinha, onde cortou os pulsos, o sangue exalava um som macabro sobre toda a casa, não haveria mais festa, a valsa da alegria transformara-se em uma sonata da tristeza. Clarinha encontrava-se ali, testemunhando aquele episódio, era hora de mudar, de deixar de ser criança. O mundo e as pessoas atingiriam em cheio aquela doce menina, um golpe baixo do destino, se é que ele existe. Os questionamentos acerca da humanidade e hipóteses sem conclusão permeiam a nova fase da vida de Ana Clara.

Continua...

sábado, 9 de janeiro de 2010

Rascunhos

Nunca fui um homem de rascunhos, talvez ainda não seja suficientemente homem, talvez o moleque domine as minhas palavras tortuosas que escorregam delicadamente pela folha de papel. Céticos e lunáticos conversam metafisicamente enquanto bêbados e religiosos discutem assuntos políticos, nada disso adianta. A vida geralmente não nos dá margem para caprichos vãos, rascunhos não existem. Tudo que tem de ser feito é único; vivemos exclusivamente da junção de momentos singulares.

As pessoas, como são singulares! Amo as pessoas! Também as odeio! Sou ambíguo. Não sei quem sou. As decisões são tão perigosas, as manhãs de domingo são tão perigosas. Sou perigoso, definitivamente. Palavras impensadas, falas apressadas, incorrigíveis falhas do meu cérebro mecânico. Não há rascunho, outras chances não concertam o que já foi consumado.

A minha multipolaridade começa a perturbar. De repente sou um acadêmico comprometido com o conhecimento e em um mesmo lapso temporal posso ser um matuto que despreza as coisas que não sejam simples. Tudo é confuso, paradoxal, antagônico. Francis Bacon era Shakespeare, Shakespeare não era ninguém. Teorias da conspiração conspiram contra mim.

As poucas certezas que me restam servem apenas para comprovar que tenho dúvidas. Começo a usar palavras que não são minhas: _I have a dream... Estou tão insano que não sei qual o propósito deste texto, mas posso afirmar com certeza que dele não saiu nenhum rascunho.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Em férias
Volto em duas semanas. Aguardem!
Abraços

domingo, 20 de dezembro de 2009

(Este texto é uma ideia do meu grande amigo Diógenes)

Cartinha de Natal

Excelentíssimo Sr. Papai Noel,

Venho por meio deste ofício comunicar-lhe sobre as minhas frustrações de Natal. A minha primeira frustração consiste em saber o porquê da representação do natal (nascimento) por um velho louco que sai por aí dando presentes para as criancinhas. A minha segunda frustração consiste em saber o porquê do uso de uma roupa vermelha (me lembra algo diabólico) em uma data cristã. A minha terceira frustração consiste em saber o motivo de o senhor fazer tantos filmes e propagandas, consequentemente ganhar muito dinheiro, e continuar morando na porcaria do Pólo Norte. Outro motivo que me leva a repudiar o senhor está n a seguinte pergunta: Por que o senhor não vai à Etiópia? Não tem resposta hein danadinho! Era de se esperar.O senhor tem opiniões políticas? O senhor deveria ser um burocrata socialista frustrado, daí o uso do vermelho diabólico. O senhor nem deve morar no Pólo Norte, sua moradia deve ser em algum recanto da Suíça com todo o dinheiro que ganha em sua atividade artística; fotos na neve são sempre parecidas! O porquê de não ir à Etiópia? O senhor deve ter um fundo de racismo e fobia de pobreza. Quando era criança nunca ganhei presentes caros, ao contrário de meus amiguinhos filhos de homens ricos. Vai ver o senhor é um político do PT, ou um governador do Democratas, quem sabe uma ilusão capitalista ou uma aspiração da humanidade de marcar dia para ser idiota.

Quero que o senhor passe na minha casa, estarei acordado, tranquilo, talvez armado, venha que eu destruirei todas as aspirações idiotas da humanidade, te esquartejarei e colocarei todos os seus pedaços no seu velho saco vermelho, colocarei fogo e depois doarei suas renas ao Fundo dos Caçadores de Veados, assim, a humanidade talvez possa dar ao Natal seu verdadeiro significado e, enfim, viver o sentido da unidade e renascimento espiritual.

Com muito carinho,

Alguém.