domingo, 17 de janeiro de 2010

I

Valsa da alegria

Aquela menina possuía os olhos sempre atentos, sentava-se de frente para o lindo jardim projetado pelo seu avô, digno de um Burle Marx . Tudo era colorido, desde o seu vestido aos dizeres romancistas que constavam em suas mãos, sua imagem com um livro na mão era parte da paisagem e deixava tudo com um tom mais gracioso. Ela não havia descoberto o lado preto e branco da vida, sua família conservava ensinamentos imperiais e limitava a vida da garota aos sarais de fim de semana, aulas particulares e aos enormes muros daquela magnífica casa. Talvez fosse medo de perdê-la para o mundo selvagem, talvez fosse apenas vontade de conservar aquela beleza inocente. Em pleno século XXI havia uma garota vivendo sobre os moldes europeus de educação oitocentista e, além de tudo, ela estava sobre o domínio da agitada Terra Brasilis.

O nome daquela garota era Ana Clara, Clarinha para os pais e empregados do palacete. Seu pai herdou uma fortuna conservada pela família desde os primórdios da Coroa Portuguesa onde seus ascendentes representavam uma grande força burocrática nos assuntos de Estado. Após a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil a família de Clarinha também veio e aqui fez fortuna, este montante em dinheiro, ouro e imóveis não foi o suficiente para consolidar todos esses anos no cerne governamental. A família primou sempre pela educação, o que proporcionou a formação de grandes diplomatas e donos de grandes meios de comunicação escrita, ramo que geração após geração ficou sobre as mãos do jovem pai de Clarinha, João Augusto.

Clarinha estava prestes a completar quinze anos, sua mãe, exímia madame, se agitava com todos os preparativos para um belíssimo baile com a presença de ilustríssimas figuras nacionais, empresários, banqueiros, políticos, juízes e militares de destaque. A sociedade estava em festa, a falsidade reunia figurões loucos por uma foto na coluna social. Clarinha parecia não se importar muito com o seu aniversário, sua mente flutuava em contos machadianos e façanhas mitológicas da Grécia Antiga.

Tudo parecia compor suavemente os delicados elementos de uma bela valsa até o momento da festa. Uma jornalista funcionária de João Augusto era muito mais que uma empregada assalariada, ela chegou discretamente à festa, sussurrou algo nos ouvidos de João até que sorrateiramente os dois se perderam em algum canto da enorme casa. A mãe de Clarinha, que chamava-se Sofia, estava muito nervosa com os preparaivos e viu a menina ainda lendo em seu quarto, ela retrucou:

_ Filha, vá se arrumar! Dê-me este livro que eu o guardarei na biblioteca!

A menina obedeceu a mãe e começou a vestir um belíssimo vestido desenhado por um importante estilista. Sofia caminhava apressada pelos corredores intencionando chegar o mais rápido o possível à biblioteca, quando chegou ao seu objetivo, uma surpresa! Lá estava o seu marido, João Augusto com a jornalista. Eles se contemplaram por alguns segundos em silêncio até Sofia sair correndo desconsolada pelos corredores com seu marido gritando logo em seguida. Clarinha não entendia todo aquele barulho, foi quando saiu de seu quarto com os choros e gritos de seu pai. Sua mãe trancara-se na cozinha, onde cortou os pulsos, o sangue exalava um som macabro sobre toda a casa, não haveria mais festa, a valsa da alegria transformara-se em uma sonata da tristeza. Clarinha encontrava-se ali, testemunhando aquele episódio, era hora de mudar, de deixar de ser criança. O mundo e as pessoas atingiriam em cheio aquela doce menina, um golpe baixo do destino, se é que ele existe. Os questionamentos acerca da humanidade e hipóteses sem conclusão permeiam a nova fase da vida de Ana Clara.

Continua...

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