sábado, 24 de outubro de 2009

Ruivinha

“As coisas mudam”, segundo a minha avó. Sempre achei essa expressão estranha, manjada, vaga, mas hoje reconheço o seu valor. Existem acontecimentos que passam naturalmente por nossa existência, não me lembro quando aprendi a andar, ou quando aprendi a amarrar os sapatos, entretanto, certas coisas acontecem com menos naturalidade, talvez por isso ficam para sempre em nossas memórias.

Dias observando corredores e jogando conversa fora, ideias malucas e, pronto! Fugindo da rotina encontra-se um amor. Não entendeu? Eu explico. Imaginem um rapaz em seus tempos de escola, ele é meio louco e tem amigos meio loucos também. Ele vive enclausurado na rotina dos corredores de sua escola, algo natural para sua vida. Um dia o rapaz e seus loucos amigos resolvem mudar algo, as ideias aparecem, assistem aula em uma outra sala, neste momento um novo ciclo social se abre e dele aparece uma certa pessoa ruiva e delicada. Lá está o amor!

O que falta para nossas vidas? Dinheiro, sucesso, amor? Uma mistura destes três itens e outros mais? Cabe apenas a cada um saber o que quer e o que pode, o único conselho que me cabe é: “Façam as coisas mudar”, não esperem a guerra para usarem as armas, mudem o caminho de volta, caminhões, ande em um. Acorde com o pé esquerdo e veja como seu dia irá melhorar. Não assista aos mesmos telejornais chatos, vá ver as estrelas. Mate aula de vez em quando (encontrei meu grande amor assim). Não leia textos como este, você pode ficar confuso.

sábado, 17 de outubro de 2009

As ruas

Lá está o garoto com seus pés cansados, um carrinho de material reciclado nas costas e uma esperança. Pela mesma rua circula um homem, embrutecido pelo tempo, mesquinho pela convivência social, desgarrado de qualquer emoção. O menino deve satisfação a seus pais, deve entregar o pouco dinheiro do dia para pensar em ter o que comer. O homem deve satisfação ao seu chefe, pensa que tem o pior emprego do mundo, está juntando dinheiro para uma viagem à Europa nas férias.

Pela mesma rua, uma mulher leviana circula com a sua minissaia, seu rebolado entorpece os homens que passam, todos a imaginam sobre o prisma de um objeto sexual, ninguém sabe que ela tem problemas familiares. Uma freira que não sente vocação religiosa também passa por ali, ela cumpre uma promessa antiga feita por sua mãe.

A mágica da rua continua, ela é ecumênica, passam por ela ricos e pobres, homens e mulheres, gênios e idiotas. Assim a passarela da vida fica, não passa, seu efeito paralisante é eterno, místico, ao contrário do homem que por ela transita, que reflete apenas os seus anseios, malícias, problemas. A rua não tem olhos, mas por ela nada escapa, o ser humano é incapaz de olhar para o lado e tudo passa por ele normalmente, inclusive a rua.

sábado, 10 de outubro de 2009

Nuvens

Dias nublados, lembranças, e uma taça de vinho. Foi assim durante muito tempo. Não havia necessidade de adquirir grandes responsabilidades, todos sentavam em volta de um velho violão que entoava canções do movimento Grunge. Tudo parecia relativamente fácil, mulheres nunca faltavam, bebida também não, cigarro para quem fuma, e conversas sobre o futuro.

Bom mesmo eram as sessões cinema, casas de amigos, conversas intimas e intimatórias, vez em quando incriminatórias. Alguns estudavam, outros não, alguns eram tímidos, outros não, alguns eram bons de bola, outros não, alguns bebiam, outros não, no entanto, todos eram amigos. Como é bom ter amigos!

Eram em dias nublados que tudo parecia ficar mais interessante, as ideias sempre fluíam, o caminho de volta da escola era mais bonito, sempre parávamos para tomar algum tipo de bebida gaseificada em uma loja de conveniência em um posto de gasolina. Inseparável amizade, um cara estranho e cabeludo que tinha muitas ideias, tinha assunto de sobra. Falava-se de coisas cultas e outras nem tanto, mas eram momentos especiais, até que o relógio apontasse três da manhã, era hora do estranho garoto cabeludo ir embora, sempre a pé. Ficava a certeza; amanhã ele volta, e sempre voltava.

Iniciavam as responsabilidades, mudava-se o ambiente, mas o rol de amigos apenas se ampliou, conhecer novas pessoas sempre trás novas perspectivas de vida. Grandes tempos, em que sair mais cedo da escola era símbolo de jogar videogame, em que nunca voltava só para casa, em que pequenas paixões dominavam um corpo adolescente.

E os tempos voltaram a mudar, juntamente com o ciclo estudantil, era o penúltimo ano naquela escola, a antecipação da saudade começou a incomodar. Amigas, elas sim, sempre deixam saudade, um carinho de amigas em dias difíceis faz muito bem. Neste ano em específico, as mulheres definitivamente marcaram a pacata vida de um jovem secundarista. Eram figuras especiais, uma modelo que tinha uma vida badalada e aproveitava ao máximo cada instante com um toque infantil e gracioso em suas ações; sua amiga inseparável era uma mulher de incrível maturidade, com quem todos os assuntos eram plausíveis de memoráveis diálogos. Uma esportista extremamente atenciosa, uma moreninha de óculos muito estudiosa e amorosa, uma menina geniosa que se impunha sem deixar de mostrar o seu lado amoroso. Todas cativaram um lugar especial na vida do espirituoso adolescente.

O ano letivo continuava, e inesquecível foi um dos últimos dias letivos, um rapaz moreno e cabeludo, de unhas grandes, juntamente com um alto rapaz magro, fanático por Metallica, ambos muito engraçados, juntaram-se com o jovem protagonista desta epopéia, e o resultado foi uma aula em que os três juntaram suas mesas e cadeiras passando a totalidade do tempo contando histórias e rindo. Realmente um dia especial.

Chegava, enfim, o ano de decisões, novamente se acrescentaram novos amigos na vida desse garoto, que já começava a se comportar como um homem. Desta vez a amizade aconteceu como em uma brincadeira, tudo passou muito rápido, um dia estava-se jogando corrinha, em plena aula de filosofia, e em outro, todos estavam se abraçando e chorando em uma cerimônia de formatura. Despedidas nunca são fáceis!

Hoje, mais homem que menino, o jovem rapaz encontra amigos universitários, dentre eles, um outro jovem de conhecimento grande, e uma menina que sempre passa a impressão de saber o que está fazendo, ela gosta de filmes, ele adora ler. E muitos outros apareceram, um político, um piadista, um tarado etc.

Culminando uma taça de vinho com um dia nublado e uma canção vinda de Seatle, as lembranças surgem e uma lágrima escorre de alegria por ter tantos amigos, e textos como esse, vez em quando aparecem, leves, carregados de um mistério, visto em nuvens cor cinza e em vagos devaneios.

( Homenagem a todos os meus grandes amigos)

sábado, 3 de outubro de 2009

Absurdos

Isso é um absurdo! Desculpe a expressão, força do hábito. E a habitualidade vem nos dando aulas de como nos admirarmos com as mesmas notícias todos os dias. O ciclo de absurdos vem atravancando nossas vidas, ficamos presos entre cães ferozes, marginais e nossas consciências.

Sempre algo aparece e, “boom” é um absurdo! Os costumes mudam e os absurdos também. Há algum tempo os preservativos eram absurdos demoníacos; hoje, mesmo com algumas contestações religiosas, o uso da camisa-de-vênus é apoiado por médicos e defendido em campanhas governamentais.

A criminalidade, esta sim, é um absurdo, ou não. A criminologia é uma vertente do Direito Penal encarregada de estudar os motivos reais que levaram um indivíduo a cometer um delito. Bem, para muitos, os crimes são injustificáveis, não discordo. No entanto, práticas criminais não devem ficar apenas na dicotomia polícia-bandido, servindo assim para ilustrar páginas de jornais e nos encher de preocupações quanto aos crimes que virão.

A análise de crimes sobre uma ótica sociológica, e de cunho determinista pode levar a um entendimento dos fatores reais de criminalidade e no combate a essas práticas. Por mais que se fale que a pobreza não influi e que ricos praticam crimes, é esquecido o fator de gravidade do crime. Ricos cometendo extorsão (conhecido como “me dá um dinheiro aí!”) não é um fator comum. Claro que temos pessoas influentes sustentando o contrabando e o tráfico, no entanto, quem vem roubar as nossas casas são pobres, em sua grande maioria. Pobres, por sua vez, não tem acesso à educação, saúde, alimentação, saneamento, lazer etc. Deve-se ressaltar que a maioria das pessoas é de boa índole, mas a exceção pode vir pela busca do dinheiro fácil e na melhoria de uma qualidade de vida que nunca vem.

Existem dias em que nos sentimos enfurecidos com o crime, com os horrores dos jornais, muitas vezes somos atingidos diretamente por este mal. E sempre nos lembramos de resmungar: “É um absurdo!” “Que coisa horrível!” E nunca nos lembramos de votar certo, de ajudar alguém, de tratarmos bem uma pessoa, de agradecer pelo que temos, de estarmos atentos à evolução dos tempos e costumes. E ficaremos em frente à TV reclamando e esperando o fim dos tempos, pedindo punições severas, penas de morte, prisões perpétuas de bandidos que já foram crianças e, por um lapso de tempo pensaram em uma vida melhor.

Estar atento para a vida, ela retribuirá, de alguma forma, talvez te poupando de ler blogs como este ou de assistir ao horário da tragédia diária, sustentada pelos comerciais de cerveja e pelos absurdos costumeiros.