As ruas
Lá está o garoto com seus pés cansados, um carrinho de material reciclado nas costas e uma esperança. Pela mesma rua circula um homem, embrutecido pelo tempo, mesquinho pela convivência social, desgarrado de qualquer emoção. O menino deve satisfação a seus pais, deve entregar o pouco dinheiro do dia para pensar em ter o que comer. O homem deve satisfação ao seu chefe, pensa que tem o pior emprego do mundo, está juntando dinheiro para uma viagem à Europa nas férias.
Pela mesma rua, uma mulher leviana circula com a sua minissaia, seu rebolado entorpece os homens que passam, todos a imaginam sobre o prisma de um objeto sexual, ninguém sabe que ela tem problemas familiares. Uma freira que não sente vocação religiosa também passa por ali, ela cumpre uma promessa antiga feita por sua mãe.
A mágica da rua continua, ela é ecumênica, passam por ela ricos e pobres, homens e mulheres, gênios e idiotas. Assim a passarela da vida fica, não passa, seu efeito paralisante é eterno, místico, ao contrário do homem que por ela transita, que reflete apenas os seus anseios, malícias, problemas. A rua não tem olhos, mas por ela nada escapa, o ser humano é incapaz de olhar para o lado e tudo passa por ele normalmente, inclusive a rua.


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