domingo, 13 de dezembro de 2009

Sinuca

Ela chegou, não disse nenhuma palavra agradável, não mentiu, apenas disse o que havia de ser dito. Ela é sorrateira, traiçoeira, pobres de nós. De que adianta ter tudo, caro amigo? Isto você deixará para trás, deixará sua identidade, sua realidade, viverá em constantes crises insanas, buscará o vazio, sem-terras habitarão sua propriedade intelectual improdutiva.

Ela é desconhecida, ao mesmo tempo íntima de todos, não quer saber de discriminação, todos passam por Ela. Tudo bem, loucos e poderosos anteciparam seus serviços, Stalin foi muito bom neste aspecto! Quando menos se espera estamos tomados em seus braços, um abraço gelado como o ar rarefeito do topo do Everest.

Lembranças ficam, aparece alguém em busca de algo bom para se lembrar. Velas vez em quando são acesas. Lágrimas sempre caem. Gritos histéricos ecoam no silêncio da eterna saudade. Ela sabe o que faz, nós não. As discussões de nada adiantam, Deus não tem culpa, Ele quer conversar conosco, dizer palavras bonitas, lindos sermões.

É uma sinuca, não há saída possível. Ela é impiedosa, ao mesmo tempo tem piedade de todos nós. Resta-nos assistir a sua passagem, não será fácil, afinal, somos humanos, nunca teremos maturidade suficiente para entender qualquer coisa que venha dos mistérios da vida e da morte. Temos a única certeza de que as bolas caem na caçapa escura. Seremos encaçapados.

Um comentário:

  1. Dom Jean, interessantíssima a forma como abordou o "tema imortal", essa sinuca inevitável, irrevogável. De poucas palavras, seu texto foi tão direto e breve quanto aquela que metaforicamente descreveu. Belo texto, meu amigo.

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