Rascunhos
Nunca fui um homem de rascunhos, talvez ainda não seja suficientemente homem, talvez o moleque domine as minhas palavras tortuosas que escorregam delicadamente pela folha de papel. Céticos e lunáticos conversam metafisicamente enquanto bêbados e religiosos discutem assuntos políticos, nada disso adianta. A vida geralmente não nos dá margem para caprichos vãos, rascunhos não existem. Tudo que tem de ser feito é único; vivemos exclusivamente da junção de momentos singulares.
As pessoas, como são singulares! Amo as pessoas! Também as odeio! Sou ambíguo. Não sei quem sou. As decisões são tão perigosas, as manhãs de domingo são tão perigosas. Sou perigoso, definitivamente. Palavras impensadas, falas apressadas, incorrigíveis falhas do meu cérebro mecânico. Não há rascunho, outras chances não concertam o que já foi consumado.
A minha multipolaridade começa a perturbar. De repente sou um acadêmico comprometido com o conhecimento e em um mesmo lapso temporal posso ser um matuto que despreza as coisas que não sejam simples. Tudo é confuso, paradoxal, antagônico. Francis Bacon era Shakespeare, Shakespeare não era ninguém. Teorias da conspiração conspiram contra mim.
As poucas certezas que me restam servem apenas para comprovar que tenho dúvidas. Começo a usar palavras que não são minhas: _I have a dream... Estou tão insano que não sei qual o propósito deste texto, mas posso afirmar com certeza que dele não saiu nenhum rascunho.


Quem dera a prancheta de textos me permitisse escrever vários rascunhos, para que deles retirasse um que fosse guiar a minha vida. Mas não há lápis e borracha, não há muita escolha entre viver e não viver. Tudo ao vivo e em cores, um stand-up comedy de improvisos. Somos ora saúde, ora doença, riqueza e pobreza, amor, descaso, fé, solidão, medo, esperança. Jamais escreveríamos todo o ser humano, Dom Jean, suas vidas e histórias se compõem dum material mais nobre que o grafite e a tinta. Por isso é preciso toda insanidade para escrever.
ResponderExcluirAbraços, Grande Jean